quarta-feira, 3 de dezembro de 2014





Por sorte eu meu lugar era ao lado da janela, por sorte nenhum dos outros dois acentos ao meu lado iriam ser ocupados, e pelas próximas nove horas eu estaria sozinha e por um ano ou talvez mais seria assim. O que me espera do outro lado do oceano? O que vai acontecer comigo? Eu quero meus pais, não, eu não quero, eu to aqui para ter o melhor momento ta minha vida, tudo vai dar certo, ou será que não? Ai como eu queria ter abraçado minha avó antes de partir! Ai meu Deus o avião já vai partir? Não consigo parar de chorar, ver meus pais, minha irmã e duas amigas do outro lado do portão de embarque dando adeus e eu não conseguia derrubar uma lágrima, até esse momento. Eu não imaginava que ia ser tão difícil até agora. Melhor rezar agora para que o avião não caia, para que tudo de certo e que eu consiga dormir.

Na janela está tudo escuro infelizmente não havia estrelas para iluminar; Adeus São Paulo, eu te amo ok? Eu volto, não tão cedo com da última vez mas eu volto, cuida da minha família, cuida dos meus amigos e pensa em mim. Acho que o remédio vai fazer efeito, vou fechar os olhos e esperar acordar apenas em Nova Iorque. Boa Noite, adeus.

Faltavam apenas duas horas para aterrizarmos e o efeito do remédio ainda restava um pouco, porém eu já conseguia ser forte o suficiente para conseguir abrir o olho e ficar acordada, era isso mesmo, finalmente eu estava chegando, eu não acreditava nisso, depois de tanta espera eu estava chegando.
Olhando na janela eu pude ver o dia claro, o sol já estava brilhando e meu estomago estava começando a se apertar de ansiedade. O que aconteceria agora?

Ao aterrizarmos passei pela segurança e eu já sentia o frio na barriga, fui buscar minhas malas, que eram muitas e fui para saída (ou chegada, depende do ponto de vista) de voos internacionais, toda nervosa fui devagar empurrando minhas malas e aquelas paredes que pareciam não acabar nunca, andando um pouco mais e finalmente eu vejo, minha mãe, minha irmã e minha avó me recepcionando  sim, eu estava de volta ao Brasil.

Há quase dois meses eu decidi que já não aguentava mais de saudades do Brasil, já não conseguia ver minha família e amigos dizendo "Queria que você estivesse aqui". Para mim, naquele momento já tinha comido Mac'n cheese demais, já tinha lidado com toda a loucura e sonho que é morar nos Estados Unidos, já tinha tido o privilégio e a infelicidade de viver o possível e o impossível na terra do tio Obama, era hora de voltar, como diz a minha mãe, voltar a realidade.

Cheguei nos Estados Unidos pronta para viver uma vida que ninguém podia me preparar, fiz amizades que eu me recuso perder, encontrei uma nova família que sei que me amam assim como a minha própria e sofri com o que todos ou quase todos sofrem. Pela primeira vez vou contar não detalhadamente sobre minha experiência nesse intercâmbio.

Minha primeira semana foi cheia de ansiedade, eu fiz amizades com obviamente Brasileiras, uma Colombiana tão louca ou até mais que eu, umas checas e acho que só. Para um começo aquela semana foi incrível, fiquei por quase cinco dias em um hotel lotado de Au Pairs de 18 a 26 anos do mundo todo, ou quase todo. Não foi difícil de fazer amizades porque todas lá compartilham a mesma sensação, ansiedade, medo, animação, tudo ao mesmo tempo.
Depois que nossos cursos acabavam nós poderíamos ir a onde quiséssemos obviamente com um horário para recolher, e tenho que confessar que o meio de ir era limitado então nós tinhamos duas opções ficar no hotel ou ir ao Walmart/restaurantes com o transporte oferecido pelo hotel. E como nós já havíamos feito isso, um grupo de seis acho, se reuniram em um dos quartos e comemos besteiras que o Walmart pode oferecer. Entre outros dois dias nós tivemos a chance de ir a New York (vamos falar os nomes em inglês por agora), um tour por ônibus e outro dia algumas horas para ir a Times Square, não preciso comentar o quanto foi bom.

Na sexta feira era dia de termos nossos voos para as host families em que iríamos passar pelo menos um ano, meu voo foi de 45 minutos, que incrivelmente voou o tempo e logo era a vez de conhecer a família. Quem foi me buscar no aeroporto foi meu host dad e o menino de sete anos que eu iria cuidar, Blake. Para minha sorte eu tinha uma das meninas que me aproximei na semana de treinamento ela esteve no mesmo voo que eu e dividíamos a mesma ansiedade.

Meus primeiros dois meses foi tudo incrível, a família era maravilhosa como eu esperava, posso até dizer perfeita, eu vivia em um subúrbio incrível, amei a cada minuto morar lá. Tinha uma amiga que morava cerca de cinco minutos de carro de mim (ou menos), tinha começado a ir a academia e a dirigir, a vida não poderia ficar melhor.

Um dia depois de completar dois meses exatos, eu, meu host dad e o menino estávamos a caminho de um mercado incrível chamado Kosco e foi exatamente cinco minutos para o meio dia que tudo chacoalhou e se tornou rosa. Estivemos em um acidente de carro que por questões judiciais eu não posso passar muita informação e até mesmo por respeito a família não darei nenhuma mais detalhe de como/onde e o que aconteceu. Só posso dizer que depois daquele dia minha vida mudou para sempre, mais que isso a vida daquela família virou de ponta cabeça e viveu um longo período de um verdadeiro pesadelo.

Eu não posso me comparar, nem de longe o que minha host mom ou qualquer um daquela família viveu, mas para mim também não foi fácil, eu agradeço porque naquele momento eu tive minha amiga que morava perto, minha família e poucos amigos me deram o máximo de apoio que era possível pela internet. Tive que adotar procedimentos para dormir, comprei um travesseiro de corpo para que eu pudesse ter algo para estar agarrada, tomava remédio para dormir e sempre colocava um cd para tocar até eu adormecer, foram longos os dias de recuperação do susto, a todo momento as cenas minhas saindo do carro, vendo todo o desastre, ligando freneticamente para minha host mom, vizinha, amiga, diretora regional e simplesmente ninguém me atendia, ninguém que eu conhecia estava ali para me ajudar, lembro ser acolhida por uma estranha que me ajudou a sair do carro e chorar por não saber o que fazer e para onde ir, ver todo meu sonho se tornar um pesadelo na minha frente, tão cedo.

Quando você está em um intercâmbio a última coisa que você espera é que uma coisas dessas aconteça, eu por pouco e por coincidências eu saí com apenas roxos. Vendo fotos é impossível acreditar no que aconteceu naquele cinzento dia de Outubro. Obrigada Anjo da Guarda, espero que você esteja bem.

Tirando as partes ruins eu vou citar alguns momentos épicos da minha viagem:
Uma experiencia incrível com uma família americana que fez o possível no meio do impossível deles para eu viver uma ótima experiência, fiz parte e convivi com bebês na fase mais gostosa e incrível, conheci pessoas encantadas, pessoas maravilhosas e memoráveis. Fiz viagens inesquecíveis e adoráveis, visitei New York até dizer chega, e nunca me cansar, fazer amizades com pessoas incríveis, torna-las minha família.

Esse também foi o dia que eu descobri que apesar de os Estados Unidos ser um país ótimo de morar também existem grandes melhorias e chega até ser absurdo não existir em um país desenvolvido como esse.

Hospitais:

Não existe hospital público naquele país, quando um acidente como aquele acontece, as vítimas são encaminhadas a hospitais particulares, que por sua vez fazem normalmente um trabalho incrível mas cobram o olho da cara.
Eu fui encaminhada a um hospital apenas para verificar que eu não havia quebrado nada, eu fiz apenas Raio X, permaneci por em média de duas a três horas em uma maca no corredor do pronto socorro e veio uma conta de quase mil dólares. Isso é inacreditável. A pior parte veio quando eu liguei para meu "plano de saúde" e fui informada que eles não cobrem acidente de carro, e eu deveria contactar o seguro do carro. Eu apenas uma estrangeira naquele país, tive que pagar pelo menos mais que a metade desse valor do meu próprio bolso. Em parte eu culpo tanto quanto a empresa brasileira por isso, eu entendo que é assim que o país funciona, mas eu penso, se o pior tivesse acontecido comigo ou vamos dizer que algo bem grave tivesse ocorrido e eu tivesse que ficar oito meses no hospital, necessitando de cirurgias, tratamentos e terapia, quem cobriria esse valor? Por uma complicação, a outra parte foi paga pela família, mas e se eles não se responsabilizarem quem seria? Na minha opinião seria a empresa pela qual eu vim, o mínimo que eles devem se comprometer, mais uma vez. Ninguém vem a um intercâmbio esperando para o pior, e o pior que poderia acontecer o seguro saúde da STB/Au Pair Care não cobre? O que é isso?

Isso foi realmente o que mais indignou em um país como esse, onde tudo que é público funciona maravilhosa bem, as vezes até melhor que o particular e não existe um hospital público?
Eu passei por muito estresse lidando com toda essa situação e infelizmente não havia com muitas pessoas a contar.  Eu assumi minhas contas mas com uma indignação por tudo isso.


Uma outra coisa eu posso garantir, algo está muito errado nas pessoas, eu gosto muito dos americanos mas muitos eu suspeito que tem algo errado, muitos são sem noção, muitos são loucos, e eu culpo o leite. Porque a quantidade que é consumida por mês é impossível que aquele leite seja de vaca, não existe rebanho suficiente para essa população. Uma outra coisa que me levou um tempo a acostumar é a comida americana, é tudo recém fabricado, pré feito, é tudo muito prático e rápido o que pode ser tão bom quanto preocupante. O que me levava a questionar a verdadeira origem e informações nutricionais nos alimentos.
Eu seria hipócrita em não  dizer que eles acertam muito bem em muitas coisas e um dos motivos que sobrevivi lá é que você é capaz de encontrar de tudo lá, e graças aos tantos latinos no país pude facilmente satisfazer e cozinhar quase todos as minhas vontades, que me levou ao aumento de peso muito notável (só para constar; para minha surpresa eu descobri que leite condensado está longe de ser uma coisa totalmente brasileira, existe em vários países, mas para meu orgulho brigadeiro continua sendo de origem brasileira). Americano sabe fazer sorvete, isso com certeza ta no topo da minha lista de o que mais sentirei saudades, os sabores e preços dessa adorável sobremesa gelada são de cair o queixo.



Mas onde quero chegar contando tudo isso?

Bom, agora que eu voltei, não esperava pelo choque de realidade que vivo a todo dia, eu esqueci o quanto esse país está atrasada, eu senti que eu dei um passo para trás no passado, na tecnologia, em tudo. É inacreditável como o Brasil consegue estar tão por fora do mundo desenvolvido. Como eu disse é outro mundo.

Agora vou falar de algumas das poucas coisas que eu talvez nunca vou superar:

Segurança - Obviamente ao voltar do país eu trouxe um celular recém lançado porque depois que eu passei e trabalhei eu mais que merecia ter um celular bom, eu fui com esse pensamento de trazer o último que lançasse e assim o fiz, todavia eu havia me esquecido que no Brasil eu devo andar com celular o mais escondido possível para evitar um furto, eu esqueci que no Brasil eu não posso andar as oito horas da noite com camera, celular e etc a mostra e não sentir medo, então  meu plano era: assim que voltar, criar um seguro de celular (olha que absurdo) e quem sabe comprar um celular qualquer e barato só para usar como meio de comunicação sem temer ser assaltada, mas afinal, qual seria o sentido de eu comprar um celular se eu não usaria-o como celular?

Preços - Para minha felicidade eu voltei a tempo de assistir a estreia de Mockingjay Part 1 aqui, antes que os americanos, e resolvi ir ao cinema no dia da estréia, ok. Como não estudo mais eu paguei o preço do ingresso inteiro e quase caí para trás na hora da compra. Eu sei que para a maioria de vocês não acham caro porque ou são estudantes ou já estão acostumados com o preço, eu sei que eu fiquei apenas um ano e pouco lá fora mas a diferença é gritante.
Lá nos EUA eu pagava cerca de US$11,00 por ingresso e ainda já achava caro, aqui eu paguei R$ 18,00. Ok sete reais de diferença, isso é uma diferença grande. Ai você vem e diz: Ah mas, se o dólar for dois reais já fica bem mais caro que nos EUA. Sim, esse pensamento está correto, mas muitas pessoas que vão a passeio no país e que precisa mesmo fazer a comparação de valores, não vão ao cinema, são pessoas que moram lá na maioria dos casos, e também não importa porque no meu ponto de vista, os cidadões que vão recebem em dólar então o valor continua sendo 11, e aqui nós recebemos em real e o valor continua sendo 18 a inteira. Lá não tem meia, mas o preço eu acho justo ser o mesmo, idosos e crianças acho tem descontos ficando em média oito dólares o ingresso, na minha visão para quem mora lá comparando com quem mora aqui, ainda é mais barato.
E olha que eu só estou falando de cinema; Americano adora cupom, e promoções e lá não é que nem aqui, tudo pela metade do dobro, quando há "sale" é promoção de verdade. Para vocês terem outra ideia, eu fui ao McDonald's e com os cupons que juntei comprei: Um frapuccino de caramelo, um sanduíche de frango e duas batatas grandes por US$ 2,00. DOIS DÓLARES. Eu e meu segundo host dad sempre adoramos o aplicativo do Mc de lá.


Tudo funciona - O meio de transporte funciona, o policiamento tanto nas estradas quanto nas ruas funcionam, o sistema de tudo funciona, as leis de transito funcionam, o mercado funciona, o banco, as empresas online e físicas, as leis, tudo lá funciona. Se voce tiver qualquer problema você pode ligar para a empresa que garantido que você não ficará muito tempo preso na linha esperando para resolver seu problema, e se acabar esperando, é garantido que seu problema será resolvido e ainda será recompensado com o desconforto e a situação que você passou. Então é isso, tudo lá funciona, até sinal de celular.

Telefone - A conta de celular é algo que me incomoda, lá existe um plano de família que deve existir individual também que funciona assim: Você tem a opção de fazer um contrato com uma operadora e comprar um celular por muito menos que a metade do valor dele, desde que voce permaneça com eles por dois anos, e o plano mensal é de 50 dólares, e você tem direito a ligações ilimitadas para qualquer operadora e fixo ou não, mensagem ilimitada e internet que varia de 1 a 3 GB. Aqui no Brasil, no meu plano pré-pago eu assino um pacote por R$ 6,99 para ter 75MB por semana preciso explicar a diferença disso? Sem contar que lá é 4G e aqui é 3G.

Vou até parar por aqui porque a lista é enorme.

Mesmo com toda essas diferenças, é difícil voltar mas é bom estar de volta, o Brasil tem muito crescer e muito a mudar e eu acredito que um dia ele chega lá, enquanto isso vou adorar fazer muitas visitinhas lá nos States. Por favor eu só estou compartilhando tudo que vivi e não me velha com comentários: Ah se você gosta tanto dos EUA porque não muda para lá?! Já mudei, tive a oportunidade de ficar ilegalmente lá mas eu não quis, eu quis voltar, mas depois de morar fora não tem como não querer voltar ou se encantar.

Então foi isso.

Dúvidas, comentários fique a vontade.

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